Equações separáveis
O método mais direto de resolução de primeira ordem — e o primeiro lugar onde se perde solução sem perceber.
- Ordem
- 1ª
- Tipo
- linear e não linear
- Métodos
- separaveis
- Aplicações
- dinâmica populacional
Antes distoO que é uma equação diferencial
Uma equação de primeira ordem é separável quando a derivada se fatora em uma parte que só depende de e outra que só depende de . Quando isso acontece, o problema de resolver uma equação diferencial se reduz a calcular duas integrais independentes.
Por que o método funciona
O procedimento que se aprende — “passa o para um lado, o para o outro e integra” — é uma manipulação de símbolos que não se justifica sozinha. não é uma fração. O que legitima o método é a regra da cadeia:
Demonstração— Teorema da separação
Como não se anula em , podemos dividir a equação por :
Seja uma primitiva de em , isto é, . Pela regra da cadeia,
Logo e têm a mesma derivada em , e portanto diferem por uma constante. Isso é exatamente a igualdade do enunciado.
Fim da demonstração.
Um exemplo completo
Métodoseparaveis
A equação já está na forma , com e . separavel
O teorema exige , e se anula em . Verificando diretamente na equação: se então . É solução, e o método a seguir não vai encontrá-la. separacao
Separação propriamente dita, legítima porque . separacao
Integrando os dois lados. O módulo em é obrigatório: a primitiva de é , e pode ser negativo.
Exponenciando. O sinal absorvido por dá conta dos dois ramos, e porque .
Aqui a solução perdida volta: devolve exatamente . Estender a constante a toda a reta cobre a família inteira de uma vez.
Aplicando a condição inicial: .
Geometria da família de soluções
Toda a álgebra acima descreve um objeto geométrico: a família de curvas que seguem o campo de direções. Vale ver as duas coisas.
Agora explore você. Repare que a solução de equilíbrio é a reta horizontal: passe o cursor perto dela e depois afaste-se para ver as duas metades da família se abrirem em direções opostas.
Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.
Equilíbrios e o que eles significam
Os zeros de nunca são um detalhe administrativo: são as soluções de equilíbrio, as constantes que a equação admite. E são elas que organizam o comportamento de longo prazo de todas as outras soluções.
Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.
Exercícios
O terceiro exercício é uma armadilha proposital, e prepara o terreno para o próximo tópico.
Resolva com , e determine o maior intervalo em que a solução existe.
Dica
Separe e integre. Depois olhe com atenção para o denominador do resultado.
Resolução
Separando (; note que também é solução, mas não satisfaz a condição inicial):
De vem , logo
O intervalo. A solução existe apenas em : quando , . A equação não tem nada de singular em — é suave em todo o plano —, mas a solução explode ali mesmo assim.
Isto se chama explosão em tempo finito, e é a razão de qualquer integrador numérico precisar de um critério de parada: o campo de direções desta própria plataforma detecta o valor não finito e interrompe o traçado.
Resolva com , e identifique geometricamente a família de curvas obtida.
Dica
Depois de integrar, você terá uma relação entre e . O que ela descreve no plano?
Resolução
Separando:
De vem , e portanto . Como , tomamos o ramo superior:
Geometria. A família é uma família de hipérboles equiláteras. Para ela degenera nas retas — que são exatamente onde o campo deixa de estar definido () ou tem inclinação zero ().
Considere com .
Mostre que e são ambas soluções. O que isso diz sobre o método de separação?
Dica
Verifique cada candidata substituindo direto na equação — verificar é sempre possível, mesmo quando resolver é delicado.
Resolução
Verificação de . Então e . Satisfaz, e . ✓
Verificação de . Então , e
Satisfaz, e . ✓
Duas soluções distintas pelo mesmo ponto. O problema de valor inicial não tem solução única. (Na verdade há infinitas: para qualquer , a função que vale em e em também serve.)
O que isso diz sobre o método. A separação, aplicada mecanicamente, daria
produzindo e escondendo por completo a solução — que é justamente o zero de que a divisão descartou.
Mas o problema aqui é mais fundo do que uma solução perdida. Em , a solução perdida era recuperável e a unicidade continuava valendo. Aqui a unicidade falha de verdade, e nenhum cuidado algébrico conserta isso.
A causa é que não é derivável em — sua derivada explode ali. É exatamente a hipótese que o próximo tópico vai exigir.
Listas destas aulas
Substituições: equações homogêneas e a translação dos eixos
Nenhum dos quatro problemas desta lista é separável do jeito que está escrito. E ainda assim eles são exercícios da seção das separáveis, porque é isso que a lista quer ensinar: uma troca de variável bem escolhida transforma numa separável uma equação que não era. São dois mecanismos, e os quatro enunciados os combinam.
Primeiro mecanismo: equações homogêneas. É o exercício 13 da mesma seção. Se o lado direito depende de e apenas através do quociente ,
a substituição — isto é, — produz e portanto
que é separável. A razão de fundo é que não muda quando se multiplicam e pelo mesmo fator: o campo de direções é constante ao longo de cada reta que passa pela origem, e é justamente o rótulo dessa reta.
Segundo mecanismo: transladar a origem. Considere
Sem e ela seria homogênea, e o primeiro mecanismo resolveria. Com eles, a invariância por escala se perde — mas repare no que e são geometricamente: numerador e denominador se anulam sobre duas retas, e as constantes só dizem que essas retas não passam pela origem. A substituição , é uma translação dos eixos, e escolher como o ponto de encontro das duas retas faz as constantes sumirem. Vista do novo centro, a equação é homogênea.
Quando não há ponto de encontro. As retas podem ser paralelas — é exatamente o caso —, e aí não existe que sirva: a translação não funciona. Mas então numerador e denominador são funções da mesma combinação , e é ela a variável certa. O exercício 21 organiza os dois casos, e o 23 é um exemplar concreto do paralelo.
Assim: 20 e 22 são o caso genérico (retas concorrentes, translação seguida de homogênea), 21 é o teorema por trás dos dois, e 23 é o caso degenerado.
O enunciado é do livro; a resolução é nossa. Tente antes de abrir — e confira 21 e 23 na p. 557 do Braun; os pares não têm resposta no livro.
Considere a equação diferencial
Saberíamos resolver esta equação se as constantes e não estivessem presentes. Para eliminá-las, fazemos a substituição , .
(a) Determine e de modo que possa ser escrita na forma .
(b) Encontre a solução geral de . (Veja o Exercício 18.)
Dica
Em (a), substitua e imponha que as constantes que sobram sejam nulas — são duas equações lineares em e . Em (b), a equação reduzida é homogênea: use .
Resolução
Por que a substituição não muda a derivada. Como e são constantes, e , de modo que . A troca é uma translação dos eixos, e a inclinação da curva em cada ponto é a mesma vista de qualquer origem.
(a) Determinação de e . Substituindo e :
Para chegar à forma pedida basta anular as duas constantes:
Ou seja, e : a nova origem está em , que é precisamente onde as retas e se cruzam. Não é coincidência — é o conteúdo do exercício 21.
(b) A equação reduzida. Dividindo numerador e denominador por ,
que só depende de : é homogênea. Com e ,
Separação e integração. Como , não se perde solução ao dividir:
Volta a e . Com , os dois termos logarítmicos se juntam:
de modo que a solução geral, em forma implícita, é
Volta às variáveis originais. Com e ,
O que essas curvas são. Em coordenadas polares centradas na nova origem — , — a igualdade acima diz , isto é,
espirais logarítmicas em torno do ponto . Escrita assim, a resposta não tem o defeito do , que só distingue direções a menos de e obriga a tratar e em separado.
Verificação. Para vale , e
Sobre o ponto . Ali numerador e denominador se anulam ao mesmo tempo: a equação assume a forma e não define direção alguma. É o centro das espirais, e nenhuma solução passa por ele — todas apenas se enrolam em sua volta, com quando .
(a) Prove que a equação diferencial
onde , , , , e são constantes, sempre pode ser reduzida a se .
(b) Resolva a equação acima no caso especial em que .
Dica
Em (a), a substituição do exercício 20 leva a um sistema linear em e cujo determinante é exatamente . Em (b), a hipótese diz que é múltiplo de — então é a única variável que aparece.
Resolução
(a) O caso . Com , , e lembrando que ,
A forma desejada se obtém exigindo que as duas constantes se anulem:
Isto é um sistema linear em com matriz e determinante . Sendo ele não nulo, o sistema tem solução única — e, por Cramer,
Feita essa translação, a equação fica , como se queria. E ela agora é homogênea: dividindo por em cima e embaixo, o lado direito é , função só de . Pelo exercício 13, é separável.
Leitura geométrica. é exatamente a condição de as retas e não serem paralelas; e o par dado por Cramer é o ponto onde elas se cruzam. A demonstração é a versão algébrica de “mude a origem para a interseção”.
(b) O caso . Agora as duas retas são paralelas, não há ponto de encontro, e a translação não tem o que fazer. Mas a mesma hipótese dá o substituto: diz que os vetores e são proporcionais, digamos , e portanto
Numerador e denominador dependem de e só através de . Essa é a variável certa. De ,
que é separável — não sobrou nenhum ou solto do lado direito. (Se , a hipótese força ; com isso dá e a equação se integra diretamente. Suponhamos daqui em diante e , e escrevamos .)
A conta. Multiplicando numerador e denominador por ,
Chamando — de modo que e — a equação vira
e integrando,
Simplificação. Substituindo de volta, , e o termo em se combina com ele:
Absorvendo as constantes e dividindo por :
ou, exponenciando,
Os dois subcasos que a fórmula não cobre.
- Se , então : o denominador é múltiplo do numerador, é constante e as soluções são retas.
- Se , então é constante e a separação fica ainda mais simples: , que integra num polinômio de segundo grau em , sem logaritmo nenhum. É o caso do exercício 23.
Encontre a solução geral de
Dica
Isole para reconhecer o formato do exercício 21 e teste . Dá diferente de zero: transladar a origem para a interseção das duas retas e seguir com .
Resolução
Forma padrão.
isto é, , , , , , . Então
e estamos no caso genérico do exercício 21: as retas se cruzam.
Translação. Resolvendo e obtém-se , . Com e ,
Homogênea. Com e ,
Frações parciais. De , avaliando em e em , vem e . Logo
Multiplicando por e exponenciando,
Volta a e . Com , temos e , de modo que o lado esquerdo é — e o fator cancela com o da direita:
Volta às variáveis originais. Com e : e . Portanto
Verificação. Escrevendo e , derivar dá , ou seja , e daí . Como
sobra . ✓
As duas soluções que a divisão excluiu. Ao dividir por supusemos e , isto é, descartamos as duas retas que passam pelo centro com essas inclinações:
- : . É solução — substituindo, e o lado direito vale —, e volta à família com .
- : , ou . Também é solução ( dos dois lados), mas nenhum finito a produz. Ela é o caso limite , e para incluí-la basta escrever a resposta na forma recíproca
com dando exatamente essa reta. É a mesma situação do §1.4 nº 1 (Lista 4), em que a forma explícita perdia a solução : o defeito é do passo algébrico, não da equação.
Solução geral.
mais a reta . Todas as curvas passam pelo ponto — o único ponto do plano onde a equação toma a forma .
Encontre a solução geral de
Dica
Compare os dois parênteses: um é quase o dobro do outro. Teste antes de tentar transladar — e, se der zero, use .
Resolução
Por que a translação não serve. Na forma padrão,
temos , , , , e
Estamos no caso degenerado do exercício 21(b): as retas e são paralelas — a segunda é a primeira multiplicada por , a menos do termo constante — e não existe origem que anule as duas constantes de uma vez. Note também que , o subcaso sem logaritmo.
A substituição certa. Ambos os parênteses dependem de e só através de : o primeiro é , o segundo é . Com , isto é, , a equação original vira
Multiplicando por :
Os termos em fora da derivada se cancelaram — é o que significa — e sobrou uma equação separável de integração imediata.
Integração.
Volta às variáveis originais.
que é a resposta do livro. Esta é uma solução em forma implícita, e é assim que se deixa: resolver para obrigaria a escolher um ramo da raiz.
Verificação. Derivando implicitamente com : , ou , com . Substituindo, , e como e , vem
isto é, . ✓
O que essas curvas são, e onde cada solução vive. Escrevendo a relação como
vê-se que, para cada , é uma parábola em com máximo em , no instante
Cada curva de nível existe, portanto, só para , e tem dois ramos — um com , outro com — que se encontram nesse ponto de retorno. Cada ramo é uma solução, no intervalo .
O ponto de encontro é justamente onde , a reta em que o coeficiente de se anula e a equação deixa de estar na forma normal: de vem , e portanto , quando . A curva chega ali com tangente vertical e para — o mesmo fenômeno do §1.4 nº 6 e nº 9 (Lista 4), agora causado pela reta proibida da equação.
Equações separáveis, solução geral e intervalo de existência
A primeira metade pede a solução geral; a segunda pede a solução de um problema de valor inicial e o intervalo de existência, que é a parte que costuma ser esquecida.
A convenção usada aqui. Como nas listas lineares, integra-se entre o ponto inicial e o ponto corrente — e numa separável isso vale para os dois lados, cada um com os seus próprios limites. Escrita a equação como e integrando de a ,
e a substituição , com , transforma o lado esquerdo numa integral em cujos limites são os valores de :
Isto é o que “separar as variáveis” significa de verdade — é uma mudança de variável, não uma manipulação de símbolos e soltos. Nos problemas de valor inicial, e são dados, e a resposta sai sem nenhuma constante para determinar depois. Nos de solução geral, é um ponto qualquer por onde a solução passa, e é ele que faz o papel da constante arbitrária.
O critério do intervalo. Achada a solução, o intervalo de existência é o maior intervalo aberto que contém e no qual a solução está definida, é derivável e satisfaz a equação. Três coisas podem interrompê-lo: um radicando que zera, uma divisão por zero na própria equação, e uma solução que escapa para o infinito em tempo finito. Nenhuma delas aparece na equação original de forma óbvia — só a resposta revela.
Duas armadilhas reaparecem aqui, e nos dois casos por causa da divisão que a separação exige: soluções perdidas (exercícios 2, 5 e 12) e escolha de ramo da raiz ou do arco (exercícios 6 a 10).
O enunciado é do livro; a resolução é nossa. Tente antes de abrir — e confira as respostas na p. 557 do Braun.
Encontre a solução geral de
Sugestão do livro: .
Dica
Separe e integre entre e : os dois lados dão arco-tangente. A sugestão serve para tirar o de dentro do no fim.
Resolução
Separação e integração. Nenhum dos fatores se anula (), então dá para dividir sem perder solução. Integrando entre um ponto da solução e o ponto corrente:
Passando para o mesmo lado o que depende do ponto base,
com constante — é a forma implícita da solução geral.
Forma explícita. Tomando a tangente dos dois lados e usando a fórmula da sugestão, na versão para a diferença,
de onde e, isolando ,
Verificação. Derivando pela regra do quociente,
enquanto
usando . Logo . ✓
Uma solução fora da família. A função também resolve a equação — confira: — e não se obtém de nenhum finito. Ela é o caso limite , que corresponde a : um valor legítimo da constante cuja tangente não existe. A forma implícita não tem esse defeito; ele foi introduzido pelo passo algébrico que deixou tudo explícito.
Solução geral. Na forma implícita, que é a completa,
explicitamente, com ,
Encontre a solução geral de
Dica
Já vem separada. Ao dividir por , anote o que você está supondo — e volte para conferir no fim.
Resolução
Separação e integração. Supondo e integrando entre e :
Exponenciando e juntando num único fator tudo o que depende do ponto base,
isto é,
A solução perdida. A divisão excluiu , que é solução: o lado esquerdo dá e o direito, . Ela é recuperada admitindo na fórmula acima — o que permite escrever, sem ressalva,
Que a solução perdida caiba de volta na família é sorte comum, não regra: veja o exercício 12 desta mesma lista, onde ela é a única resposta e nenhum valor da constante a produz.
Solução geral.
com correspondendo à solução constante .
Encontre a solução geral de
Dica
O lado direito não parece separável — até você agrupar os termos dois a dois e fatorar.
Resolução
Fatoração. Agrupando,
É a mesma estrutura do exercício 1, com no lugar de .
Separação e integração.
e reunindo as constantes do ponto base em ,
A solução vale enquanto o argumento da tangente permanecer entre dois múltiplos ímpares consecutivos de . Como tem máximo em e decresce sem limite para os dois lados, toda solução acaba encontrando uma assíntota vertical — mas o enunciado pede só a forma geral.
Solução geral.
em cada intervalo maximal onde o argumento fica entre dois múltiplos ímpares consecutivos de .
Encontre a solução geral de
Dica
Exponencial de soma é produto de exponenciais — é isso que separa a equação.
Resolução
Separação e integração. Como :
isto é,
Isolando,
Onde vale. É preciso , ou seja, . Note que sai de graça: é soma de duas exponenciais. Com a primitiva indefinida essa positividade teria de ser imposta à mão, como condição sobre a constante; com os limites explícitos, ela é consequência.
Toda solução, portanto, existe apenas à esquerda de uma barreira, e quando se aproxima dela — o que era de esperar: com , quanto maior , mais depressa ele cresce. Nenhuma solução perdida aqui, pois nunca se anula.
Solução geral.
Encontre a solução geral de
Dica
Junte o que é de de um lado e o que é de do outro. Os dois lados viram derivadas logarítmicas — e a divisão por merece nota.
Resolução
Separação e integração. Supondo e :
Exponenciando e absorvendo o sinal na constante:
Esta é a solução geral em forma implícita, e é assim que se deixa: isolar obrigaria a escolher um ramo do arco-seno e restringiria a resposta sem necessidade.
As soluções perdidas. A divisão excluiu , isto é, as constantes com inteiro. Todas são soluções — os dois lados da equação zeram —, e todas voltam à família fazendo .
Solução geral, em forma implícita:
nos intervalos onde . O valor cobre as soluções constantes .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Separe e integre de a à esquerda, de a à direita — a condição inicial já entra aí. No fim, escolha o sinal da raiz olhando para .
Resolução
Separação e integração, já com os dados iniciais nos limites.
Não precisa de módulo: . Exponenciando,
Nenhuma constante ficou para determinar — a condição inicial foi usada no momento em que se escreveram os limites.
Escolha do ramo. Como e a solução é contínua, ela permanece positiva enquanto existir — para trocar de sinal teria de passar por , onde a equação, na forma , nem está definida. Portanto
Intervalo de existência. É preciso que o radicando seja positivo:
Para negativo não há obstáculo algum: cresce. Logo o intervalo é
À medida que sobe até esse valor, e a derivada explode: a curva chega ao eixo com tangente vertical, e ali a equação deixa de fazer sentido.
Solução geral da equação, em forma implícita:
isto é, , com o sinal fixado pelo ponto inicial e restrito a .
Solução do PVI: e ramo positivo, no intervalo .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Fatore o denominador: . Os limites de integração são de a e de a . Depois verifique se o radicando chega mesmo a zerar — desta vez ele não zera.
Resolução
Separação e integração. Como , a equação separa em , e integrando com os dados iniciais nos limites:
Logo
e, como , fica-se com o ramo positivo:
Verificação em . O logaritmo se anula e sobra . ✓
Intervalo de existência. O radicando é mínimo onde é mínimo, isto é, em , onde vale
Como ele nunca chega a zero — e portanto nunca se aproxima de , o único ponto onde a equação seria singular —, a solução existe para todo :
Vale contrastar com o exercício anterior, de aparência parecida: lá o radicando alcançava zero em tempo finito e cortava o intervalo; aqui ele tem um piso positivo. Só a conta distingue os dois casos.
Solução geral da equação, em forma implícita:
ou seja , com o sinal fixado pelo ponto inicial.
Solução do PVI: e ramo positivo, em .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Junte as duas potências de antes de qualquer coisa: a equação é bem mais simples do que parece.
Resolução
Simplificação. Dividindo tudo por :
Separação e integração. Supondo e usando os dados iniciais como limites:
isto é,
Multiplicando por e isolando,
com o ramo positivo, porque .
Intervalo de existência. É preciso :
O intervalo é
simétrico porque a equação só depende de através de e . Nas duas extremidades : a solução explode em tempo finito, apesar de a equação não ter nada de singular ali. Isso é típico das não lineares — o é o responsável — e não acontece com equação linear alguma.
Solução geral da equação.
esta última perdida na divisão por e não recuperável por nenhum valor de .
Solução do PVI: e ramo positivo, em .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Integre de a e de a ; depois complete o quadrado em . O sinal da raiz é decidido por , que está ABAIXO de .
Resolução
Separação e integração.
ou seja,
Completando o quadrado. Somando dos dois lados,
pela fatoração por agrupamento .
Escolha do ramo. , e como o sinal é o negativo:
Verificação em . . ✓
Intervalo de existência. Como sempre, o radicando tem o sinal de , e é preciso que seja estritamente positivo: em teríamos , exatamente onde o denominador da equação original se anula. Logo
Quando , a solução tende a com derivada infinita — a curva encosta na reta , que é a linha proibida da equação.
Solução geral da equação, em forma implícita:
isto é, , com o sinal fixado por estar o ponto inicial acima ou abaixo da reta .
Solução do PVI: e ramo negativo, em .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
A separação é a do exercício 5, agora com limites e . O cuidado está no fim: em o zera, e vale conferir o que a equação diz exatamente no ponto inicial.
Resolução
Separação e integração. Supondo e integrando de a e de a :
isto é,
Exponenciando,
Intervalo de existência. O arco-seno exige , ou seja, , ou ainda . Como o ponto inicial é , o intervalo candidato é — mas ele ainda não é aberto do lado esquerdo, e é aí que está o detalhe.
O que acontece em . Substituindo , na equação original: o lado esquerdo é , e o direito é . Não são iguais. Ou seja, não existe finito: a solução chega ao ponto inicial com tangente vertical, e o dado é atingido como limite, não como valor de uma solução derivável ali. O intervalo de existência, como solução derivável, é
Nele, , o arco-seno é derivável, e decresce de rumo a quando .
Sobre o ramo. também satisfaz e a mesma condição em , e também resolve a equação — desta vez subindo de rumo a . O ponto inicial fica sobre a linha , onde a equação não está na forma normal e o teorema de unicidade não se aplica; duas soluções saindo dali não contradizem coisa alguma.
Solução geral da equação, em forma implícita:
com cobrindo as soluções constantes perdidas na divisão por .
Solução do PVI: , no ramo — ou no ramo —, em .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Frações parciais, com os limites e à esquerda, e à direita. Trate à parte o caso , em que não há frações parciais para fazer. Suponha .
Resolução
Caso . Decompondo,
pois . Integrando de a à esquerda e de a à direita:
isto é,
Exponenciando,
Isolando — de vem —
Verificação em . O numerador zera e o denominador vale , logo . ✓
Caso . A equação vira , e
Assim , isto é, , e
Intervalo de existência. A solução explode onde o denominador se anula. No caso , isso acontece em
que é negativo qualquer que seja a ordem entre e : se , o logaritmo é negativo e o fator é positivo; se , os dois trocam de sinal juntos. O intervalo que contém é, portanto, . No caso , o denominador zera em , e o intervalo é .
Leitura do modelo. Este é o modelo de uma reação química de segunda ordem, em que é a quantidade de produto formado a partir de e unidades de dois reagentes. Quando , : a reação para quando o reagente em menor quantidade acaba — e a resposta, com todo o seu aspecto algébrico, está dizendo exatamente isso.
Solução geral da equação. Para , escrevendo ,
mais as soluções constantes e , perdidas na divisão. Para ,
mais a constante .
Solução do PVI: no caso , com intervalo ; e no caso , com intervalo .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Antes de separar: a condição inicial é . Tente escrever com e veja o que acontece.
Resolução
A resposta.
Por que. A função nula satisfaz a equação — os dois lados dão — e satisfaz .
E ela é a única. Na forma normal, a equação é
que é linear homogênea com coeficiente contínuo em ; pelo mesmo argumento do §1.2 nº 10 (Lista 2), a única solução com valor inicial nulo é a identicamente nula.
Onde a separação trava. Separando, o lado esquerdo seria
e com a integral da esquerda diverge: não é integrável perto de zero. O método não chega nem a começar — o que é mais informativo do que a versão com primitiva indefinida, em que só se percebe o problema no fim, ao notar que
nunca se anula para , e que é inadmissível porque a divisão por pressupôs .
Dos dois jeitos a conclusão é a mesma: a solução do problema é justamente aquela que o primeiro passo do método descartou — o oposto do que aconteceu no exercício 2, onde a solução perdida voltava fazendo a constante igual a zero.
Sobre o intervalo. A restrição vem do que divide: em a equação não está na forma normal. Como o ponto inicial é , o intervalo é . Que a solução seja constante e “caberia” em toda a reta não muda isso: o intervalo de existência é uma propriedade do problema, e não da aparência da fórmula.
Solução geral da equação.
A integral não tem primitiva elementar — é o cosseno integral, a menos de constante — e fica indicada na resposta.
Solução do PVI: , isto é, , em .
O progresso fica salvo neste navegador, e só muda quando você aperta.
Depois disto
- Modelos populacionaisDo crescimento malthusiano à equação logística — e por que o primeiro falha.
- Misturas, tumores e trajetórias ortogonaisTrês aplicações que se resolvem com os mesmos métodos — inclusive a geometria pedida pela ementa.
- Equações exatasQuando a equação já é a derivada de alguma coisa — e o teste que revela isso.
- Existência e unicidadeComo saber que a solução existe e é única antes de conseguir escrevê-la — e por que isso importa na prática.
Fontes deste tópico
Martin Braun. Differential Equations and Their Applications: An Introduction to Applied Mathematics, 4ª ed. Springer-Verlag, 1993.
§1.4 · p. 20-26 (PDF: p. 36–42)
Introduz o método a partir da homogênea linear já resolvida em §1.2, e trata com cuidado a questão das soluções perdidas na divisão.
fontes/EDO/Differential Equations and The - Braun, Martin_7579.pdf