O que é uma equação diferencial
Ordem, solução e o que significa "resolver" — o vocabulário mínimo antes de qualquer método.
Uma equação algébrica pede um número: pergunta quais valores de a satisfazem, e a resposta é . Uma equação diferencial pede uma função. Ela não fala do valor de num ponto, e sim de como varia — e pergunta quais funções variam daquele jeito.
Essa diferença é a razão de todo o curso existir. Quase toda lei que descreve alguma coisa mudando no tempo é escrita como uma relação entre a grandeza e sua taxa de variação, porque é isso que se consegue medir e postular localmente. A lei diz como o sistema muda agora; a equação diferencial é o instrumento que converte isso em como o sistema se comporta ao longo do tempo.
Definições
O adjetivo ordinária distingue esse caso de outro, que fica fora do curso:
O que é uma solução
O detalhe do intervalo não é formalidade. Uma função pode resolver a equação num pedaço da reta e nem sequer estar definida noutro, e a resposta honesta a “qual é a solução?” inclui onde ela vale — o tópico de existência e unicidade volta a esse ponto com um exemplo em que a solução explode em tempo finito.
Verificar é sempre possível; resolver quase nunca
Aqui está a assimetria mais útil do curso inteiro, e vale internalizá-la antes de aprender qualquer método:
Na prática isso significa que você nunca precisa “confiar” numa resposta, sua ou de outro. Substituir na equação decide a questão.
Solução geral, solução particular e a condição inicial
O exemplo acima expõe o padrão: soluções de equações diferenciais vêm em famílias, não sozinhas. Integrar introduz uma constante arbitrária, e uma equação de ordem costuma produzir delas.
O que fixa as constantes é informação adicional sobre o estado do sistema:
A família, vista
Nada disso é abstrato. A equação tem solução geral , e a figura abaixo é essa família inteira de uma vez. Os tracinhos mostram a inclinação que a equação exige em cada ponto do plano; as curvas são as funções que seguem essas inclinações.
Clique em qualquer ponto para impor uma condição inicial ali e ver qual membro da família ela seleciona.
Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.
Três coisas ficam visíveis aí, e todas voltarão depois:
- Por cada ponto passa uma curva — é o que o teorema de existência e unicidade vai garantir, e sob quais hipóteses.
- A solução constante é a reta horizontal. Zeros do lado direito são soluções de equilíbrio, e organizam o comportamento das demais.
- As curvas nunca se cruzam. Se cruzassem, o ponto de cruzamento teria duas soluções distintas passando por ele.
O que “resolver” vai significar neste curso
Vale deixar dito desde já, porque a palavra muda de sentido ao longo do programa:
- Forma fechada explícita — . O ideal, e o caso raro.
- Forma implícita — uma relação que não se isola em . Ainda é uma resposta legítima; as equações exatas produzem quase sempre deste tipo.
- Descrição qualitativa — não a fórmula, mas o comportamento: para onde a solução vai, se oscila, se estabiliza. É o que o módulo de sistemas autônomos faz quando fórmula nenhuma existe.
- Aproximação numérica — uma tabela de valores com erro controlado, que é o que se usa quando o problema é real. Tema dos métodos numéricos.
Os quatro são respostas. Só o primeiro é fórmula.
Exercícios
Os dois primeiros são de vocabulário e devem sair rápido. O terceiro é o que separa quem entendeu a definição de solução de quem decorou o procedimento.
Dê a ordem de cada equação e diga se é uma EDO ou uma EDP.
Dica
Ordem conta derivações, não potências. E olhe quantas variáveis a incógnita tem.
Resolução
(a) EDO de ordem 2. A derivada mais alta é ; o expoente é potência, não ordem. A incógnita depende de só.
(b) EDP (equação de Laplace), de ordem 2. A incógnita depende de e de , daí as derivadas parciais. Fora do escopo deste curso.
(c) EDO de ordem 1. De novo, é potência da função, não derivada.
Verifique que é solução de em .
Dica
Derive e some. Não tente resolver a equação — só teste a candidata.
Resolução
Derivando termo a termo:
Somando com :
Os termos em se cancelam e os dois meios se somam:
Vale para todo , logo é solução em toda a reta.
Note que não foi preciso saber de onde veio.
Considere .
Verifique que ela satisfaz . Em seguida responda: essa expressão define uma solução ou duas?
Dica
Onde a função está definida? A definição de solução exige um intervalo — e não é um intervalo.
Resolução
Verificação. Derivando,
São iguais onde ambos existem, isto é, para todo . ✓
A pergunta de verdade. A expressão define duas soluções distintas, não uma.
A definição exige que a solução viva num intervalo. O conjunto não é um intervalo: é a união de dois, e . Em cada um deles a fórmula define uma solução, e elas não se comunicam — nenhuma informação atravessa , onde a função nem existe.
Por que isso importa. Um PVI com seleciona a solução em , e essa solução deixa de existir quando . O intervalo máximo de existência é , e não a reta toda.
Nada na equação avisa que isso vai acontecer: o lado direito é um polinômio, definido e suave em todo o plano. A singularidade é da solução, não da equação — e depende da condição inicial escolhida, o que nenhuma inspeção da equação revela. Essa é exatamente a distinção que existência e unicidade formaliza.
O progresso fica salvo neste navegador, e só muda quando você aperta.
Depois disto
- Equações lineares de primeira ordemO fator integrante transforma um lado inteiro da equação na derivada de um produto — e aí basta integrar.
- Equações separáveisO método mais direto de resolução de primeira ordem — e o primeiro lugar onde se perde solução sem perceber.
Fontes deste tópico
Martin Braun. Differential Equations and Their Applications: An Introduction to Applied Mathematics, 4ª ed. Springer-Verlag, 1993.
§1.1 · p. 1-2 (PDF: p. 17–18)
Define ordem, solução e o programa do livro. Duas páginas, mas fixam o vocabulário usado o resto do curso.
fontes/EDO/Differential Equations and The - Braun, Martin_7579.pdf