Existência e unicidade
Como saber que a solução existe e é única antes de conseguir escrevê-la — e por que isso importa na prática.
- Ordem
- 1ª
- Tipo
- linear e não linear
Antes distoEquações separáveis
A seção anterior sobre equações exatas termina com uma constatação desconfortável, que o próprio título da seção do Braun anuncia: “and why we cannot solve very many differential equations”. Os métodos elementares cobrem um punhado de casos. A esmagadora maioria das equações não tem solução em forma fechada.
Isso levanta três perguntas, que o Braun coloca nesta ordem:
- Como saber que o problema de valor inicial tem solução, se não conseguimos exibi-la?
- Como saber que há só uma?
- Para que perguntar isso, se de todo modo não vamos escrever a solução?
A terceira é a interessante, e a resposta dela justifica o resto:
“…the knowledge that (1) has a unique solution is our hunting license to go looking for it.” — Braun (1993), §1.10, p. 68
Na prática nunca é preciso a solução exata: quatro casas decimais bastam, e um computador as fornece. Mas um método numérico devolve números para qualquer entrada, inclusive quando não existe solução alguma, ou quando existem várias. O teorema é o que autoriza a confiar no que a máquina devolveu.
O enunciado
Onde a hipótese falha
Vale reencontrar o contraexemplo da seção anterior sob a luz do teorema.
Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.
Iteração de Picard
A demonstração não é pedida pela ementa, mas a construção que a sustenta é útil por si: ela produz a solução como limite de uma sequência de aproximações.
O primeiro passo é reescrever o problema. Integrando os dois lados de de até e usando :
Uma função contínua satisfaz o problema de valor inicial se e somente se satisfaz essa equação integral. A vantagem é que o lado direito sugere um processo iterativo:
Sob as hipóteses do teorema, essa sequência converge, e o limite é a solução. É o mesmo mecanismo do método de Newton: uma receita que se realimenta e se aproxima do alvo.
Exercícios
O primeiro exercício constrói uma solução conhecida do zero — é o melhor jeito de sentir o mecanismo de Picard.
Aplique a iteração de Picard a com . Calcule , e , e reconheça o padrão.
Dica
Comece com e integre repetidamente. Os resultados vão parecer familiares.
Resolução
Com , e :
O padrão. , que é a soma parcial da série de Taylor de . E de fato a solução de , é .
A iteração de Picard construiu a exponencial a partir do nada — sem que precisássemos saber de antemão que a resposta era . É esse o sentido de “provar existência sem exibir a solução”: o limite existe, e depois se reconhece quem ele é.
Para quais pontos iniciais o teorema garante solução única de ?
Dica
Calcule e veja onde ela deixa de ser contínua.
Resolução
Aqui , definida para , e
que é contínua para e explode quando .
Conclusão. O teorema garante existência e unicidade para todo com . Para ele nada diz — e não é preciosismo: em a unicidade realmente falha, com e ambas resolvendo (para ).
Note a ausência de qualquer condição sobre : a equação é autônoma, e nada no enunciado depende de .
Para com , as hipóteses do teorema valem em todo o plano. Ainda assim a solução existe apenas em .
Isso contradiz o teorema? Explique, e diga o que se pode e o que não se pode concluir da hipótese valer em todo o plano.
Dica
Releia com atenção o que exatamente o enunciado promete.
Resolução
Não há contradição. O teorema afirma que existe um intervalo em torno de com solução única. Ele não afirma qual, nem que seja todo o domínio onde as hipóteses valem.
Aqui e são contínuas em todo o plano, e a solução é de fato única em torno de — o que o teorema prometeu. Que ela deixe de existir em é uma propriedade da solução, não uma falha das hipóteses.
O que se pode concluir. Por cada ponto do plano passa exatamente uma curva solução, e curvas solução distintas nunca se cruzam. Essa é a conclusão global útil, e é a que sustenta o argumento de “nenhuma solução atravessa a reta ” na equação logística.
O que não se pode concluir. Que a solução exista para todo . Extensão global é um teorema diferente, e exige hipóteses adicionais — crescimento no máximo linear em , por exemplo. É exatamente esse crescimento que viola.
Por que isso importa em computação. Um integrador numérico aplicado a este problema além de produzirá números — grandes, mas números. Sem o teorema, não haveria como distinguir “a solução cresce rápido” de “a solução deixou de existir”.
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Depois disto
- Métodos numéricos: Euler e Runge-KuttaO que fazer quando não existe fórmula fechada — que é o caso quase sempre.
Fontes deste tópico
Martin Braun. Differential Equations and Their Applications: An Introduction to Applied Mathematics, 4ª ed. Springer-Verlag, 1993.
§1.10 · p. 67-81 (PDF: p. 83–97)
Braun demonstra o teorema por completo via iteração de Picard, dizendo que o argumento é acessível a quem terminou um ano de cálculo. A ementa pede apenas o enunciado, mas a construção de Picard vale por si.
fontes/EDO/Differential Equations and The - Braun, Martin_7579.pdf