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Datação radioativa e as falsificações de Van Meegeren

Decaimento exponencial aplicado a um caso real de perícia em obras de arte.

Ordem
Tipo
linear
Métodos
lineares 1a ordem, separaveis
Aplicações
datação radioativa, perícia em arte, arqueologia

Antes distoEquações lineares de primeira ordem

Em maio de 1945, Han van Meegeren foi preso em Amsterdã acusado de colaboração com os nazistas: havia vendido a Hermann Göring um Vermeer, patrimônio nacional holandês. Para escapar da acusação de traição, ele confessou um crime menor — o quadro não era um Vermeer. Era dele.

Ninguém acreditou. Van Meegeren pintou outra tela na prisão para provar que sabia, e ainda assim peritos continuaram sustentando que os quadros anteriores eram autênticos do século XVII. A disputa só terminou em 1967, com um argumento que não era de história da arte: era uma equação diferencial de primeira ordem.

Decaimento radioativo

O postulado físico é local, e é simples: cada núcleo tem, por unidade de tempo, a mesma probabilidade de decair, independentemente da idade da amostra. Se há N(t)N(t) núcleos, o número de decaimentos por unidade de tempo é proporcional a NN.

dNdt=λN\frac{dN}{dt} = -\lambda N
N(0)=N0N(0) = N_0

Métodoseparaveis

  1. dNN=λdt\frac{dN}{N} = -\lambda\,dt

    A equação é separável, com g(t)=λg(t) = -\lambda e h(N)=Nh(N) = N. É também linear homogênea — os dois métodos servem. decaimento

  2. N≢0 suposto; N0 tratada aˋ parteN \not\equiv 0 \text{ suposto; } N \equiv 0 \text{ tratada à parte}

    Como sempre na separação, o zero de hh fica de fora: N0N \equiv 0 é solução (amostra sem núcleo nenhum), e será recuperada ao permitir N0=0N_0 = 0 no fim.

  3. lnN=λt+C1\ln N = -\lambda t + C_1

    Integrando os dois lados. Como N>0N > 0 fisicamente, o módulo do logaritmo é dispensável aqui.

  4. N(t)=Cexp(λt)N(t) = C\exp(-\lambda t)

    Exponenciando, e escrevendo C=exp(C1)>0C = \exp(C_1) > 0.

  5. N(t)=N0exp(λt)\boxed{N(t) = N_0 \exp(-\lambda t)}

    A condição inicial em t=0t = 0: N(0)=Cexp(0)=CN(0) = C\exp(0) = C.

Meia-vida

Na prática ninguém tabela λ\lambda; tabela-se a meia-vida, que é a mesma informação em unidade legível.

Demonstração— Relação entre meia-vida e constante de decaimento

Por definição, N(T)=N0/2N(T) = N_0/2. Usando a solução:

N0exp(λT)=N02exp(λT)=12.N_0 \exp(-\lambda T) = \frac{N_0}{2} \quad\Longrightarrow\quad \exp(-\lambda T) = \frac{1}{2}.

Tomando logaritmo, λT=ln2-\lambda T = -\ln 2, donde T=ln2/λT = \ln 2 / \lambda.

Fim da demonstração.

A figura abaixo é a família N=λNN' = -\lambda N. Mexa em λ\lambda e observe que todas as curvas decaem para zero, mas nenhuma o alcança em tempo finito.

Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.

Datação por carbono-14

O caso Van Meegeren

Para quadros, o relógio certo é outro, e ele está na própria tinta. O branco de chumbo, usado por pintores há séculos, é fabricado a partir de minério que contém urânio. Na cadeia de decaimento do urânio aparecem o rádio-226 (meia-vida de 16001\,600 anos) e, logo depois, o chumbo-210 (meia-vida de 2222 anos).

O ponto decisivo é o que a fabricação faz com essa cadeia:

Isso dá o teste. Numa tinta antiga, chumbo-210 e rádio-226 estão em equilíbrio: taxas de decaimento comparáveis. Numa tinta nova, o chumbo-210 ainda está muito acima do equilíbrio.

A equação

Seja y(t)y(t) a quantidade de chumbo-210 por grama de branco de chumbo, e rr a taxa (praticamente constante, dada a meia-vida de 16001\,600 anos do rádio) com que o rádio-226 o produz.

dydt=λy+r\frac{dy}{dt} = -\lambda y + r
y(0)=y0y(0) = y_0

Métodolineares-1a-ordem

  1. y+λy=ry' + \lambda y = r

    Agora há produção além do decaimento: a equação deixa de ser homogênea. Escrevendo na forma padrão y+p(t)y=q(t)y' + p(t)y = q(t), com p=λp = \lambda e q=rq = r constantes.

  2. μ(t)=exp(λt)\mu(t) = \exp(\lambda t)

    Fator integrante μ(t)=exp(λdt)=exp(λt)\mu(t) = \exp\left(\int \lambda\,dt\right) = \exp(\lambda t). fator integrante

  3. ddt[exp(λt)y]=rexp(λt)\frac{d}{dt}\Bigl[\exp(\lambda t)\,y\Bigr] = r\exp(\lambda t)

    Multiplicando a equação por μ\mu, o lado esquerdo vira a derivada de um produto — que é a razão de ser do fator integrante.

  4. exp(λt)y(t)y0=rλ[exp(λt)1]\exp(\lambda t)\,y(t) - y_0 = \frac{r}{\lambda}\Bigl[\exp(\lambda t) - 1\Bigr]

    Integrando de 00 a tt e usando y(0)=y0y(0) = y_0.

  5. y(t)=rλ+(y0rλ)exp(λt)\boxed{y(t) = \frac{r}{\lambda} + \left(y_0 - \frac{r}{\lambda}\right)\exp(-\lambda t)}

    Isolando yy. Os dois termos têm leituras distintas: o primeiro é o que sobra do chumbo original, o segundo é o equilíbrio com o rádio.

Explore abaixo com λ=ln2/220,0315\lambda = \ln 2/22 \approx 0{,}0315 por ano. Comece com y0y_0 bem alto (tinta nova) e com y0y_0 perto de r/λr/\lambda (tinta antiga), e veja como as duas trajetórias se tornam indistinguíveis depois de umas poucas meias-vidas.

Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.

O argumento que decidiu a questão

Aqui está a inversão elegante. Não se sabe y0y_0 — ninguém mediu a tinta em 1650. Mas a equação pode ser resolvida para trás, e é isso que se faz.

Isolando y0y_0 na solução com tt igual à idade suposta do quadro:

y0=rλ+(y(t)rλ)exp(λt).y_0 = \frac{r}{\lambda} + \left(y(t) - \frac{r}{\lambda}\right)\exp(\lambda t).

Mede-se y(t)y(t) e rr hoje, supõe-se t300t \approx 300 anos (um Vermeer autêntico) e calcula-se qual teria sido y0y_0.

E o fator exp(λt)\exp(\lambda t) é o que torna a conclusão robusta:

Os quadros eram de Van Meegeren. Os cálculos originais estão em Braun (1993), §1.3, p. 16.

Exercícios

O primeiro fixa a aritmética da meia-vida. O terceiro é o argumento de Van Meegeren em miniatura — se você conseguir montá-lo sozinho, entendeu a seção.

  1. básicomeia-vidano espírito de Braun §1.3

    Uma amostra de um isótopo de meia-vida T=8T = 8 dias tem hoje 200200 mg. Quanto havia há 2424 dias? E quanto restará daqui a 44 dias?

    Dica

    Vinte e quatro dias são exatamente três meias-vidas. Quatro dias são meia meia-vida — use a fórmula, não a intuição.

    Resolução

    Há 24 dias. Três meias-vidas para trás significam multiplicar por 22 três vezes:

    N(24)=20023=1600 mg.N(-24) = 200 \cdot 2^{3} = 1\,600 \text{ mg}.

    Daqui a 4 dias. Aqui não dá para “meter metade da metade” no olho. Com λ=ln2/8\lambda = \ln 2/8:

    N(4)=200exp ⁣(ln284)=20021/2=2002141,4 mg.N(4) = 200 \exp\!\left(-\frac{\ln 2}{8}\cdot 4\right) = 200 \cdot 2^{-1/2} = \frac{200}{\sqrt{2}} \approx 141{,}4 \text{ mg}.

    Note que 141,4141{,}4 não é 150150 — a queda não é linear no tempo, e meia meia-vida não corresponde a um quarto perdido.

  2. intermediáriodatação por carbonono espírito de Braun §1.3

    Um fragmento de madeira de um sítio arqueológico apresenta 62%62\% do 14C{}^{14}\mathrm{C} esperado num organismo vivo. Estime a idade da amostra, tomando T=5568T = 5\,568 anos.

    Em seguida: se a medida de 62%62\% tiver incerteza de ±2\pm 2 pontos percentuais, qual é a incerteza na idade?

    Dica

    Para a segunda parte, calcule a idade nos dois extremos, 60% e 64%, e compare.

    Resolução

    A idade. De N/N0=0,62N/N_0 = 0{,}62:

    t=Tln2ln ⁣(10,62)=55680,69310,47803840 anos.t = \frac{T}{\ln 2}\,\ln\!\left(\frac{1}{0{,}62}\right) = \frac{5\,568}{0{,}6931}\cdot 0{,}4780 \approx 3\,840 \text{ anos}.

    A incerteza. Nos extremos:

    t(0,64)=55680,69310,44633585,t(0,60)=55680,69310,51084103.t(0{,}64) = \frac{5\,568}{0{,}6931}\cdot 0{,}4463 \approx 3\,585, \qquad t(0{,}60) = \frac{5\,568}{0{,}6931}\cdot 0{,}5108 \approx 4\,103.

    A faixa é de aproximadamente 35853\,585 a 41034\,103 anos, ou seja, cerca de ±260\pm 260 anos — algo como 7%7\%.

    A lição. A incerteza relativa na idade é maior que a da medida, e piora à medida que N/N0N/N_0 diminui: o logaritmo comprime muito perto de 11 e estica perto de 00. É a razão quantitativa do limite prático de 5050 a 6060 mil anos.

  3. avançadoperícia por chumbo-210no espírito de Braun §1.3

    Uma tinta apresenta hoje desintegração de chumbo-210 a 8,58{,}5 desintegrações por minuto por grama de chumbo, e o rádio-226 presente produz r=0,8r = 0{,}8 desintegrações por minuto por grama.

    Tome λ=ln2/22\lambda = \ln 2 / 22 por ano.

    (a) Calcule a taxa inicial y0y_0 sob a hipótese de o quadro ter 300300 anos.

    (b) Sabendo que minérios reais dificilmente ultrapassam algumas centenas de desintegrações por minuto por grama, o que se conclui?

    (c) Refaça (a) supondo 2020 anos e comente.

    Dica

    Use a fórmula invertida y0=r/λ+(y(t)r/λ)exp(λt)y_0 = r/\lambda + (y(t) - r/\lambda)\exp(\lambda t). O trabalho todo está em avaliar a exponencial.

    Resolução

    Primeiro o equilíbrio:

    rλ=0,8ln2/22=0,8220,693125,4.\frac{r}{\lambda} = \frac{0{,}8}{\ln 2/22} = \frac{0{,}8 \cdot 22}{0{,}6931} \approx 25{,}4.

    Curiosamente, a tinta está abaixo do equilíbrio (8,5<25,48{,}5 < 25{,}4), o que inverte o sinal do transiente — mas o método é o mesmo.

    (a) Hipótese de 300 anos. Com exp(λt)=2300/221,21×104\exp(\lambda t) = 2^{300/22} \approx 1{,}21 \times 10^{4}:

    y0=25,4+(8,525,4)1,21×104=25,416,91,21×1042,05×105.y_0 = 25{,}4 + (8{,}5 - 25{,}4)\cdot 1{,}21\times 10^{4} = 25{,}4 - 16{,}9 \cdot 1{,}21 \times 10^{4} \approx -2{,}05 \times 10^{5}.

    (b) A conclusão. O resultado é negativo, e uma taxa de desintegração negativa não existe. A hipótese de 300300 anos não é apenas improvável: é impossível. O quadro não pode ser do século XVII.

    Este é o argumento de Van Meegeren na forma mais nítida possível — nem foi preciso invocar limites de concentração em jazidas, porque a hipótese já colide com a positividade.

    (c) Hipótese de 20 anos. Agora exp(λt)=220/221,88\exp(\lambda t) = 2^{20/22} \approx 1{,}88:

    y0=25,4+(8,525,4)1,8825,431,86,4.y_0 = 25{,}4 + (8{,}5 - 25{,}4)\cdot 1{,}88 \approx 25{,}4 - 31{,}8 \approx -6{,}4.

    Ainda negativo, mas por pouco — e dentro da ordem de grandeza dos erros de medida e da variabilidade de rr entre lotes de tinta. Uma idade de poucas décadas é compatível com os dados; três séculos não são, por cinco ordens de grandeza.

    O que a comparação ensina. A força do método não está na precisão da datação — ele data mal. Está em que o fator exp(λt)\exp(\lambda t) separa hipóteses distantes por margens enormes. É um teste de discriminação, não um relógio.

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Fontes deste tópico

  1. Martin Braun. Differential Equations and Their Applications: An Introduction to Applied Mathematics, 4ª ed. Springer-Verlag, 1993.

    §1.3 · p. 11-20 (PDF: p. 27–36)

    O caso Van Meegeren, em que a razão entre chumbo-210 e rádio-226 provou que quadros vendidos como Vermeer eram falsificações do século XX.

    fontes/EDO/Differential Equations and The - Braun, Martin_7579.pdf

Plataforma de estudo de matemática e suas aplicações. As fontes de cada tópico ficam listadas ao fim da respectiva página.