Equações lineares de primeira ordem
O fator integrante transforma um lado inteiro da equação na derivada de um produto — e aí basta integrar.
- Ordem
- 1ª
- Tipo
- linear
- Métodos
- lineares 1a ordem, fator integrante
- Aplicações
- problemas de mistura
Antes distoO que é uma equação diferencial
Entre todas as equações de primeira ordem, as lineares são as que sabemos resolver por completo. Não é sorte: a linearidade é exatamente a propriedade que permite reorganizar a equação até que um dos lados seja a derivada de alguma coisa reconhecível.
Primeiro o caso mais simples
Quando , a equação se chama homogênea, e cai direto no que já sabemos fazer.
Métodolineares-1a-ordem
Dividindo por , o que exige — a solução de equilíbrio fica de fora por enquanto.
O lado esquerdo já é uma derivada disfarçada: pela regra da cadeia, .
Integrando os dois lados. Agora é só cálculo de primitiva.
Exponenciando. A constante absorve o sinal, e recupera a solução que a divisão havia descartado.
O caso geral: o fator integrante
Com o truque anterior não funciona — não dá para separar de . A saída é multiplicar a equação inteira por uma função escolhida a dedo.
Demonstração— fator integrante
Pela regra do produto,
Basta então que . Mas essa é a equação homogênea que acabamos de resolver, com solução — tomando a constante igual a 1, já que qualquer múltiplo serve.
Fim da demonstração.
Não decore a fórmula
Dá para levar a conta até o fim e obter uma expressão fechada para . O próprio Braun recomenda não memorizá-la:
“The reader should not memorize formulae (11) and (12). Rather, we will solve all nonhomogeneous equations by first multiplying both sides by , by writing the new left-hand side as the derivative of , and then by integrating both sides of the equation.” — Braun (1993), §1.2, p. 8
São três movimentos, e é isso que vale reter: multiplicar por , reconhecer a derivada do produto, integrar.
Um exemplo completo
Métodofator-integrante
Identificando a equação na forma padrão: aqui e . linear 1a
Calculando o fator integrante. Como , vale . fator integrante
Multiplicando a equação inteira por . Primeiro dos três movimentos.
Reconhecendo o lado esquerdo como derivada de um produto — segundo movimento. É este passo que o fator integrante existe para viabilizar. fator integrante
Terceiro movimento: integrar os dois lados.
Isolando . Esta é a solução geral, com a família inteira parametrizada por .
Aplicando a condição inicial: .
Conferindo, que aqui é barato: derive e substitua. Vale sempre fazer — verificar é possível mesmo quando resolver não é.
O campo de direções abaixo mostra a família. Repare no comportamento perto de : o termo explode, e é por isso que o problema só faz sentido em .
Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.
Exercícios
Todos têm resolução escondida. Tente antes de abrir — o erro é a parte útil.
Resolva o problema de valor inicial
Dica
Coeficiente constante: o fator integrante é uma exponencial simples.
Resolução
, logo . Multiplicando:
De vem , e portanto .
Note que quando : o valor é a solução de equilíbrio, obtida fazendo direto na equação.
Encontre a solução geral de
Dica
Cuidado com o sinal de : a equação está na forma padrão com .
Resolução
.
Multiplicando a equação por :
Verificação: e . ✓
Um tanque contém 100 L de água pura. A partir de , entra salmoura com concentração de 2 g/L à vazão de 5 L/min, e a mistura — mantida homogênea — sai à mesma vazão de 5 L/min.
Encontre a quantidade de sal no tanque e o valor de . Interprete o limite.
Dica
Monte um balanço: taxa de variação = taxa de entrada − taxa de saída. A concentração de saída é .
Resolução
Montagem. Entra sal a g/min. Sai à concentração g/L, à vazão de 5 L/min, ou seja, g/min. Logo
que na forma padrão é .
Resolução. , e portanto
Assim . De vem :
Limite. g. E isso tem de ser assim: o tanque tende à concentração da entrada, g/L, e g. O modelo prevê o que o bom senso já dizia — o que é justamente o teste de sanidade que vale fazer sempre.
Note também que o volume permaneceu constante porque as vazões são iguais. Se não fossem, o coeficiente deixaria de ser constante, e o fator integrante ficaria mais interessante.
Listas destas aulas
Solução geral de equações lineares
Os sete enunciados pedem a mesma coisa — a solução geral — e todos cedem ao mesmo método. O que muda de um para outro é o que acontece na última integral.
A convenção usada aqui. Toda integração é feita entre um ponto base e o ponto corrente , e não como primitiva indefinida. Multiplicada por , a equação vira , e integrar dos dois lados de a dá
Duas vantagens sobre o "" da primitiva indefinida. A constante arbitrária deixa de ser um símbolo solto e passa a ser um valor, — o que já deixa o PVI resolvido de graça, como se verá na lista da aula 02. E o método continua valendo quando a primitiva não existe em forma elementar, porque o Teorema Fundamental do Cálculo garante a integral definida de qualquer função contínua, tenha ela primitiva com nome ou não.
O ponto base é livre: trocar multiplica por uma constante positiva, que se cancela na divisão final. Nos exercícios abaixo ele é escolhido onde a conta fica mais limpa — quase sempre .
Do 5º em diante aparece o ponto que a seção quer ensinar: uma equação linear está resolvida quando se chega à igualdade acima, mesmo que a integral não se escreva com funções elementares. Recusar a resposta em forma de integral seria confundir “resolver” com “achar fórmula fechada”.
O enunciado é do livro; a resolução é nossa. Tente antes de abrir — e confira as respostas na p. 557 do Braun.
Encontre a solução geral de
Dica
Homogênea (): divida por , reconheça à esquerda e integre de a .
Resolução
Na forma padrão, e . Dividindo por — o que supõe — o lado esquerdo é uma derivada logarítmica:
Integrando de a :
e exponenciando,
Coletando a constante. O fator não depende de : é um número, e à medida que percorre os reais ele percorre os reais também. Chamando-o de ,
Verificação. . ✓
Vale reparar em duas coisas. A solução é periódica de período , oscilando entre e — nada aqui cresce nem decai a longo prazo, porque . E, para , ela nunca se anula: uma exponencial é sempre positiva. Isso não é acidente deste exercício, e sim propriedade de toda equação linear homogênea — solução que toca o zero em algum instante é identicamente nula, o que também explica por que a divisão inicial por não custou nenhuma solução além dessa.
Solução geral.
O valor devolve a solução nula, perdida na divisão por — a família acima é, portanto, o conjunto completo das soluções.
Encontre a solução geral de
Dica
Mesma receita do anterior. A diferença aparece na hora de calcular — e a saída é não calcular: deixe a integral definida onde está.
Resolução
Novamente homogênea, com . O do enunciado restringe o domínio a , então o ponto base natural é . Integrando de a :
com .
E a integral fica assim mesmo. não se escreve com funções elementares, e é exatamente aqui que a convenção da integral definida deixa de ser preferência e vira necessidade: pelo Teorema Fundamental do Cálculo, a função
existe e é derivável em , com — e é só disso que a resposta precisa.
Verificação. Pela regra da cadeia e pelo TFC, . ✓
Trocar o limite inferior por outro muda por uma constante, o que só reabsorve o valor de — a solução geral é a mesma.
Solução geral.
A integral não tem primitiva elementar e fica indicada assim mesmo: ela é uma função perfeitamente definida de , e a resposta está completa nesta forma.
Encontre a solução geral de
Dica
O numerador é exatamente a derivada do denominador — a integral de é um logaritmo, e a exponencial o desfaz. Tome , que zera esse logaritmo.
Resolução
Fator integrante. Com ,
Não é preciso módulo no logaritmo: . E note o que a escolha comprou: , o que vai simplificar a próxima linha.
Integrando de a . Multiplicada por , a equação é , e portanto
Escrevendo ,
Verificação. Com e ,
e somando sobra . ✓
Toda solução tende a quando , e a diferença entre duas delas é , que também vai a zero: as soluções se aproximam umas das outras. Compare com o exercício 1, onde a diferença entre duas soluções oscila para sempre.
Solução geral.
Encontre a solução geral de
Dica
com , e à direita sobra — integração por partes, agora com limites.
Resolução
Fator integrante. Com e : , e . A equação multiplicada por é
Integrando de a .
Por partes, com e :
Logo
e dividindo por :
Verificação. Derivando, . Somando , os termos em se cancelam e sobra
A estrutura da resposta é a de sempre: uma solução particular da não homogênea, , somada à solução geral da homogênea, . Note que a constante vinda do limite inferior da integral foi absorvida por — mais um sinal de que a escolha de não altera a família de soluções.
Solução geral.
Encontre a solução geral de
Dica
O fator integrante sai fácil. O obstáculo é — que não tem primitiva elementar, e nem por isso impede a resposta.
Resolução
Fator integrante. Com ,
e a equação vira
Integrando de a .
isto é, com ,
Aqui a integral não se escreve com funções elementares — é parente da que define a função erro. E aqui a convenção paga o que prometeu: com primitiva indefinida seria preciso dizer “seja uma primitiva de ”, sem poder exibir nenhuma; com a integral definida, a resposta está escrita.
Ela é tão explícita quanto qualquer outra: dá para avaliar numericamente em qualquer , derivar, estudar limites. O que não dá é escrevê-la com as funções que têm nome — e isso é uma limitação do nosso vocabulário de funções, não do método.
Compare com o exercício seguinte, que tem o mesmo .
Solução geral.
A integral não tem primitiva elementar; ela permanece indicada na resposta, e isso não a torna menos explícita.
Encontre a solução geral de
Dica
Mesmo fator integrante do anterior — mas agora o integrando à direita é a derivada de algo conhecido. Atalho alternativo: procure primeiro a solução de equilíbrio.
Resolução
Com o mesmo e :
Integrando de a . Desta vez o integrando é uma derivada conhecida, , e a integral definida se avalia:
Logo , ou seja, com ,
Pelo atalho. Fazendo na equação original, dá : uma solução constante. Somando a ela a solução geral da homogênea, , chega-se ao mesmo resultado sem calcular integral nenhuma.
O contraste com o exercício 5. As duas equações têm o mesmo coeficiente e, portanto, o mesmo fator integrante. Só o lado direito mudou — e com ele a diferença entre uma resposta em funções elementares e uma resposta escrita com integral. Quem decide se a conta “fecha” é , não .
Solução geral.
Encontre a solução geral de
Dica
Ainda é linear — o aparece sozinho nos dois lados. Junte os dois termos em à esquerda antes de tentar identificar .
Resolução
Forma padrão. Passando o termo em para a esquerda:
Fator integrante. As duas parcelas são derivadas logarítmicas — em cada uma, o numerador é a derivada do denominador a menos de constante. Com , os dois logaritmos se anulam no limite inferior:
de modo que
Integrando de a . Com , , e portanto
com . De novo uma integral sem primitiva elementar, e de novo isso não é problema: é contínuo e positivo em toda a reta, então a solução está definida para todo .
Por que reorganizar era obrigatório. Se alguém lesse a equação como está escrita e tomasse , o fator integrante sairia errado — e o erro não apareceria em nenhuma passagem seguinte, só no resultado final. A forma padrão não é burocracia: é a única disposição em que os símbolos e significam o que o método supõe que signifiquem.
Solução geral.
A integral não se exprime com funções elementares e fica indicada na resposta.
Problemas de valor inicial lineares
Sete problemas de valor inicial, todos lineares de primeira ordem. O método é exatamente o da lista anterior, e aqui a convenção de integrar de até deixa de ser só uma organização melhor para virar o caminho mais curto:
Agora e são dados pelo enunciado. A condição inicial entra na primeira linha da conta, e não existe constante alguma para determinar depois — some a etapa de “substituir e resolver para ”.
E o método continua valendo quando a primitiva não é elementar, que é o caso de quatro dos sete enunciados abaixo. Nesses, aliás, não há alternativa: o Braun observa isso na Observação 4 da seção — dá para achar a solução geral e depois avaliar , exceto quando não se integra diretamente, e aí a integral definida é obrigatória.
O enunciado é do livro; a resolução é nossa. Tente antes de abrir — e confira as respostas na p. 557 do Braun.
Resolva o problema de valor inicial
Dica
Homogênea: . E, ao contrário do que costuma acontecer, tem primitiva elementar — substituição hiperbólica.
Resolução
Sendo homogênea, a solução é
Esta já é uma resposta completa. Mas aqui a integral se avalia em forma fechada: com ,
já que o colchete se anula em (pois ). Logo
usando no segundo termo.
Verificação em . , e . ✓
A solução está definida para todo : sempre, inclusive para muito negativo, quando .
Solução geral da equação.
Solução do PVI: .
Resolva o problema de valor inicial
Dica
A mesma fórmula do exercício anterior. Não tente calcular a integral — escreva-a de a e pare.
Resolução
O produto não tem primitiva elementar, e a resposta fica assim mesmo. Note que a condição inicial já está embutida: em a integral vale e , sem precisar determinar constante nenhuma.
Como o integrando é positivo, a integral cresce com e é decrescente para — mas ela nunca chega a zero, pelo mesmo motivo do exercício 1 da lista anterior: exponencial não se anula.
Solução geral da equação.
A integral não tem primitiva elementar e permanece indicada.
Solução do PVI: .
Resolva o problema de valor inicial
Dica
Antes de calcular qualquer coisa: existe uma função óbvia que satisfaz esta equação e esta condição inicial?
Resolução
A equação é a mesma do exercício 9; só a condição inicial mudou. E a resposta é
Por quê. A função identicamente nula satisfaz a equação () e satisfaz . Pela fórmula geral,
e o teorema de existência e unicidade para equações lineares — com contínua, como aqui — garante que não há outra.
O que este par de exercícios mostra. Numa equação linear homogênea, todas as soluções são múltiplos de uma só: se resolve, também resolve, e não há mais nada. A condição inicial apenas escolhe o múltiplo. Escolher o múltiplo zero é o único jeito de obter uma solução que toca o eixo — e ela o toca em toda parte, não num ponto. Nenhuma solução não nula da equação 9 cruza o eixo em instante algum.
Solução geral da equação. É a mesma do exercício 9:
com a integral, sem primitiva elementar, indicada.
Solução do PVI: , isto é, .
Resolva o problema de valor inicial
Dica
Atenção ao sinal: na forma padrão , então . E integra na hora.
Resolução
Com , e portanto :
O integrando é elementar — a menos do fator , é a derivada do próprio . Integrando de a e usando :
Logo , e multiplicando por :
Repare que a condição inicial entrou na segunda linha, e não numa etapa posterior de “determinar ”: não houve constante alguma para determinar.
Verificação. e ; somando, sobra . ✓
Compare com o exercício 14, que é a mesma equação com no lugar de — e cujo resultado não é elementar. Mais uma vez, quem decide é o lado direito.
Solução geral da equação.
— a solução de equilíbrio somada à geral da homogênea.
Solução do PVI: .
Resolva o problema de valor inicial
Dica
Separe o lado direito em duas parcelas: integra na hora, não integra nunca. Use como limite inferior.
Resolução
Com :
Integrando de a e usando , o lado esquerdo fica só :
já que avaliado entre os limites dá e . Dividindo por :
Verificação em . A integral se anula e sobra . ✓
Repare que a parcela elementar do lado direito produziu a solução particular — a mesma que se acharia procurando o equilíbrio de — e toda a parte não elementar ficou confinada ao termo que carrega a condição inicial.
Solução geral da equação.
A integral não tem primitiva elementar e fica indicada; trocar o limite inferior por outro ponto apenas redefine .
Solução do PVI: .
Resolva o problema de valor inicial
Dica
, e o limite inferior da integral é , não — o ponto onde a condição foi dada.
Resolução
Com :
O integrando não tem primitiva elementar. Integrando de a :
e portanto
Verificação em . A integral se anula e sobra . ✓
Escolher não é obrigatório — daria para integrar de a e carregar uma constante —, mas é o que faz a condição inicial aparecer dentro da fórmula em vez de exigir uma conta extra depois.
Solução geral da equação.
O integrando não tem primitiva elementar; a integral fica indicada.
Solução do PVI: .
Resolva o problema de valor inicial
Dica
Mesmo fator integrante do exercício 11. Agora, porém, sobra — a integral não elementar mais famosa da matemática.
Resolução
Com :
Integrando de a e usando :
Verificação. Escrevendo , temos e, pelo TFC,
A integral que sobrou é, a menos de normalização, a função erro:
de modo que . Batizar a integral não a torna mais elementar —
erfé tabelada e implementada exatamente porque não se escreve com as funções de sempre. É o mesmo tipo de resposta dos exercícios 9, 12 e 13; só que esta tem nome próprio.Solução geral da equação.
A integral não tem primitiva elementar — dar-lhe o nome
erfé notação, não solução em forma fechada.Solução do PVI: .
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Depois disto
- Datação radioativa e as falsificações de Van MeegerenDecaimento exponencial aplicado a um caso real de perícia em obras de arte.
- Misturas, tumores e trajetórias ortogonaisTrês aplicações que se resolvem com os mesmos métodos — inclusive a geometria pedida pela ementa.
- Propriedades algébricas das soluçõesPor que o conjunto das soluções de uma linear homogênea é um espaço vetorial — e o que isso economiza.
Fontes deste tópico
Martin Braun. Differential Equations and Their Applications: An Introduction to Applied Mathematics, 4ª ed. Springer-Verlag, 1993.
§1.2 · p. 2-11 (PDF: p. 18–27)
Toda a estrutura deste tópico segue o Braun: primeiro o caso homogêneo, depois o fator integrante para o não homogêneo. A Observação sobre não decorar a fórmula é a Remark 3 da seção, na p. 8.
fontes/EDO/Differential Equations and The - Braun, Martin_7579.pdf