Aula 04
Equações separáveis, solução geral e intervalo de existência
Os doze problemas de §1.4 — cinco de solução geral e sete de valor inicial, estes últimos pedindo também o intervalo em que a solução encontrada de fato existe.
- Exercícios
- 12
- Enunciados
- Braun §1.4, p. 24-25 (PDF: p. 40–41)
- Exercita
- Equações separáveis
A primeira metade pede a solução geral; a segunda pede a solução de um problema de valor inicial e o intervalo de existência, que é a parte que costuma ser esquecida.
A convenção usada aqui. Como nas listas lineares, integra-se entre o ponto inicial e o ponto corrente — e numa separável isso vale para os dois lados, cada um com os seus próprios limites. Escrita a equação como e integrando de a ,
e a substituição , com , transforma o lado esquerdo numa integral em cujos limites são os valores de :
Isto é o que “separar as variáveis” significa de verdade — é uma mudança de variável, não uma manipulação de símbolos e soltos. Nos problemas de valor inicial, e são dados, e a resposta sai sem nenhuma constante para determinar depois. Nos de solução geral, é um ponto qualquer por onde a solução passa, e é ele que faz o papel da constante arbitrária.
O critério do intervalo. Achada a solução, o intervalo de existência é o maior intervalo aberto que contém e no qual a solução está definida, é derivável e satisfaz a equação. Três coisas podem interrompê-lo: um radicando que zera, uma divisão por zero na própria equação, e uma solução que escapa para o infinito em tempo finito. Nenhuma delas aparece na equação original de forma óbvia — só a resposta revela.
Duas armadilhas reaparecem aqui, e nos dois casos por causa da divisão que a separação exige: soluções perdidas (exercícios 2, 5 e 12) e escolha de ramo da raiz ou do arco (exercícios 6 a 10).
O enunciado é do livro; a resolução é nossa. Tente antes de abrir — e confira as respostas na p. 557 do Braun.
Encontre a solução geral de
Sugestão do livro: .
Dica
Separe e integre entre e : os dois lados dão arco-tangente. A sugestão serve para tirar o de dentro do no fim.
Resolução
Separação e integração. Nenhum dos fatores se anula (), então dá para dividir sem perder solução. Integrando entre um ponto da solução e o ponto corrente:
Passando para o mesmo lado o que depende do ponto base,
com constante — é a forma implícita da solução geral.
Forma explícita. Tomando a tangente dos dois lados e usando a fórmula da sugestão, na versão para a diferença,
de onde e, isolando ,
Verificação. Derivando pela regra do quociente,
enquanto
usando . Logo . ✓
Uma solução fora da família. A função também resolve a equação — confira: — e não se obtém de nenhum finito. Ela é o caso limite , que corresponde a : um valor legítimo da constante cuja tangente não existe. A forma implícita não tem esse defeito; ele foi introduzido pelo passo algébrico que deixou tudo explícito.
Solução geral. Na forma implícita, que é a completa,
explicitamente, com ,
Encontre a solução geral de
Dica
Já vem separada. Ao dividir por , anote o que você está supondo — e volte para conferir no fim.
Resolução
Separação e integração. Supondo e integrando entre e :
Exponenciando e juntando num único fator tudo o que depende do ponto base,
isto é,
A solução perdida. A divisão excluiu , que é solução: o lado esquerdo dá e o direito, . Ela é recuperada admitindo na fórmula acima — o que permite escrever, sem ressalva,
Que a solução perdida caiba de volta na família é sorte comum, não regra: veja o exercício 12 desta mesma lista, onde ela é a única resposta e nenhum valor da constante a produz.
Solução geral.
com correspondendo à solução constante .
Encontre a solução geral de
Dica
O lado direito não parece separável — até você agrupar os termos dois a dois e fatorar.
Resolução
Fatoração. Agrupando,
É a mesma estrutura do exercício 1, com no lugar de .
Separação e integração.
e reunindo as constantes do ponto base em ,
A solução vale enquanto o argumento da tangente permanecer entre dois múltiplos ímpares consecutivos de . Como tem máximo em e decresce sem limite para os dois lados, toda solução acaba encontrando uma assíntota vertical — mas o enunciado pede só a forma geral.
Solução geral.
em cada intervalo maximal onde o argumento fica entre dois múltiplos ímpares consecutivos de .
Encontre a solução geral de
Dica
Exponencial de soma é produto de exponenciais — é isso que separa a equação.
Resolução
Separação e integração. Como :
isto é,
Isolando,
Onde vale. É preciso , ou seja, . Note que sai de graça: é soma de duas exponenciais. Com a primitiva indefinida essa positividade teria de ser imposta à mão, como condição sobre a constante; com os limites explícitos, ela é consequência.
Toda solução, portanto, existe apenas à esquerda de uma barreira, e quando se aproxima dela — o que era de esperar: com , quanto maior , mais depressa ele cresce. Nenhuma solução perdida aqui, pois nunca se anula.
Solução geral.
Encontre a solução geral de
Dica
Junte o que é de de um lado e o que é de do outro. Os dois lados viram derivadas logarítmicas — e a divisão por merece nota.
Resolução
Separação e integração. Supondo e :
Exponenciando e absorvendo o sinal na constante:
Esta é a solução geral em forma implícita, e é assim que se deixa: isolar obrigaria a escolher um ramo do arco-seno e restringiria a resposta sem necessidade.
As soluções perdidas. A divisão excluiu , isto é, as constantes com inteiro. Todas são soluções — os dois lados da equação zeram —, e todas voltam à família fazendo .
Solução geral, em forma implícita:
nos intervalos onde . O valor cobre as soluções constantes .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Separe e integre de a à esquerda, de a à direita — a condição inicial já entra aí. No fim, escolha o sinal da raiz olhando para .
Resolução
Separação e integração, já com os dados iniciais nos limites.
Não precisa de módulo: . Exponenciando,
Nenhuma constante ficou para determinar — a condição inicial foi usada no momento em que se escreveram os limites.
Escolha do ramo. Como e a solução é contínua, ela permanece positiva enquanto existir — para trocar de sinal teria de passar por , onde a equação, na forma , nem está definida. Portanto
Intervalo de existência. É preciso que o radicando seja positivo:
Para negativo não há obstáculo algum: cresce. Logo o intervalo é
À medida que sobe até esse valor, e a derivada explode: a curva chega ao eixo com tangente vertical, e ali a equação deixa de fazer sentido.
Solução geral da equação, em forma implícita:
isto é, , com o sinal fixado pelo ponto inicial e restrito a .
Solução do PVI: e ramo positivo, no intervalo .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Fatore o denominador: . Os limites de integração são de a e de a . Depois verifique se o radicando chega mesmo a zerar — desta vez ele não zera.
Resolução
Separação e integração. Como , a equação separa em , e integrando com os dados iniciais nos limites:
Logo
e, como , fica-se com o ramo positivo:
Verificação em . O logaritmo se anula e sobra . ✓
Intervalo de existência. O radicando é mínimo onde é mínimo, isto é, em , onde vale
Como ele nunca chega a zero — e portanto nunca se aproxima de , o único ponto onde a equação seria singular —, a solução existe para todo :
Vale contrastar com o exercício anterior, de aparência parecida: lá o radicando alcançava zero em tempo finito e cortava o intervalo; aqui ele tem um piso positivo. Só a conta distingue os dois casos.
Solução geral da equação, em forma implícita:
ou seja , com o sinal fixado pelo ponto inicial.
Solução do PVI: e ramo positivo, em .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Junte as duas potências de antes de qualquer coisa: a equação é bem mais simples do que parece.
Resolução
Simplificação. Dividindo tudo por :
Separação e integração. Supondo e usando os dados iniciais como limites:
isto é,
Multiplicando por e isolando,
com o ramo positivo, porque .
Intervalo de existência. É preciso :
O intervalo é
simétrico porque a equação só depende de através de e . Nas duas extremidades : a solução explode em tempo finito, apesar de a equação não ter nada de singular ali. Isso é típico das não lineares — o é o responsável — e não acontece com equação linear alguma.
Solução geral da equação.
esta última perdida na divisão por e não recuperável por nenhum valor de .
Solução do PVI: e ramo positivo, em .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Integre de a e de a ; depois complete o quadrado em . O sinal da raiz é decidido por , que está ABAIXO de .
Resolução
Separação e integração.
ou seja,
Completando o quadrado. Somando dos dois lados,
pela fatoração por agrupamento .
Escolha do ramo. , e como o sinal é o negativo:
Verificação em . . ✓
Intervalo de existência. Como sempre, o radicando tem o sinal de , e é preciso que seja estritamente positivo: em teríamos , exatamente onde o denominador da equação original se anula. Logo
Quando , a solução tende a com derivada infinita — a curva encosta na reta , que é a linha proibida da equação.
Solução geral da equação, em forma implícita:
isto é, , com o sinal fixado por estar o ponto inicial acima ou abaixo da reta .
Solução do PVI: e ramo negativo, em .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
A separação é a do exercício 5, agora com limites e . O cuidado está no fim: em o zera, e vale conferir o que a equação diz exatamente no ponto inicial.
Resolução
Separação e integração. Supondo e integrando de a e de a :
isto é,
Exponenciando,
Intervalo de existência. O arco-seno exige , ou seja, , ou ainda . Como o ponto inicial é , o intervalo candidato é — mas ele ainda não é aberto do lado esquerdo, e é aí que está o detalhe.
O que acontece em . Substituindo , na equação original: o lado esquerdo é , e o direito é . Não são iguais. Ou seja, não existe finito: a solução chega ao ponto inicial com tangente vertical, e o dado é atingido como limite, não como valor de uma solução derivável ali. O intervalo de existência, como solução derivável, é
Nele, , o arco-seno é derivável, e decresce de rumo a quando .
Sobre o ramo. também satisfaz e a mesma condição em , e também resolve a equação — desta vez subindo de rumo a . O ponto inicial fica sobre a linha , onde a equação não está na forma normal e o teorema de unicidade não se aplica; duas soluções saindo dali não contradizem coisa alguma.
Solução geral da equação, em forma implícita:
com cobrindo as soluções constantes perdidas na divisão por .
Solução do PVI: , no ramo — ou no ramo —, em .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Frações parciais, com os limites e à esquerda, e à direita. Trate à parte o caso , em que não há frações parciais para fazer. Suponha .
Resolução
Caso . Decompondo,
pois . Integrando de a à esquerda e de a à direita:
isto é,
Exponenciando,
Isolando — de vem —
Verificação em . O numerador zera e o denominador vale , logo . ✓
Caso . A equação vira , e
Assim , isto é, , e
Intervalo de existência. A solução explode onde o denominador se anula. No caso , isso acontece em
que é negativo qualquer que seja a ordem entre e : se , o logaritmo é negativo e o fator é positivo; se , os dois trocam de sinal juntos. O intervalo que contém é, portanto, . No caso , o denominador zera em , e o intervalo é .
Leitura do modelo. Este é o modelo de uma reação química de segunda ordem, em que é a quantidade de produto formado a partir de e unidades de dois reagentes. Quando , : a reação para quando o reagente em menor quantidade acaba — e a resposta, com todo o seu aspecto algébrico, está dizendo exatamente isso.
Solução geral da equação. Para , escrevendo ,
mais as soluções constantes e , perdidas na divisão. Para ,
mais a constante .
Solução do PVI: no caso , com intervalo ; e no caso , com intervalo .
Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:
Dica
Antes de separar: a condição inicial é . Tente escrever com e veja o que acontece.
Resolução
A resposta.
Por que. A função nula satisfaz a equação — os dois lados dão — e satisfaz .
E ela é a única. Na forma normal, a equação é
que é linear homogênea com coeficiente contínuo em ; pelo mesmo argumento do §1.2 nº 10 (Lista 2), a única solução com valor inicial nulo é a identicamente nula.
Onde a separação trava. Separando, o lado esquerdo seria
e com a integral da esquerda diverge: não é integrável perto de zero. O método não chega nem a começar — o que é mais informativo do que a versão com primitiva indefinida, em que só se percebe o problema no fim, ao notar que
nunca se anula para , e que é inadmissível porque a divisão por pressupôs .
Dos dois jeitos a conclusão é a mesma: a solução do problema é justamente aquela que o primeiro passo do método descartou — o oposto do que aconteceu no exercício 2, onde a solução perdida voltava fazendo a constante igual a zero.
Sobre o intervalo. A restrição vem do que divide: em a equação não está na forma normal. Como o ponto inicial é , o intervalo é . Que a solução seja constante e “caberia” em toda a reta não muda isso: o intervalo de existência é uma propriedade do problema, e não da aparência da fórmula.
Solução geral da equação.
A integral não tem primitiva elementar — é o cosseno integral, a menos de constante — e fica indicada na resposta.
Solução do PVI: , isto é, , em .